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Um dos grupos de amigos mais unidos e ativos que eu tenho no Brasil é o dos Politécnicos, mais precisamente os  “POLI Civil 83”. Esse grupo se vê sempre que possível, tentando aproveitar a estadia em São Paulo dos que já não vivem mais lá para se encontrar, lembrando dos aniversários e trocando longos e divertidíssimos emails. Em um destes emails encontrei a descrição que meu amigo Claudio, amante de vinhos, fazia da sua viagem ao Vale dos Vinhedos (RS). Achei que a narrativa da viagem representava tão bem a produção vinícola da região, com conselhos de safras e vinhos que pedi para publicar no blog, para compartir com “o mundo”.

O post de hoje, portanto, traz uma inovação. Pela primeira vez conto com um colaborador, alguém apaixonado por um tema que teve a generosidade de autorizar a publicação de um artigo seu no Domusporto. Deixo vocês com Claudio Ramos Muniz Freire, engenheiro, enólogo nos tempos livres, e um cara nota 1000.

Deixa eu contar um pouco do que vimos no Vale dos Vinhedos (RS), pois nos emocionamos com a paixão e o orgulho demonstrados pelas donos das vinícolas pequenas, mais artesanais, gente que atende as pessoas que visitam suas propriedades com uma simpatia e uma simplicidade contagiantes.

Para os amantes do vinho, vale a pena conhecer a região. A cidade de Bento Gonçalves é muito gostosa, e a região onde fica o Vale é linda, com muitas colinas e estradinhas que as interligam. Na época em que o visitamos, abril, o clima é típico de montanha (céu azul e temperatura na faixa dos 22º durante o dia, friozinho de 10º à noite), e presença de todos os produtores, dos maiores aos mais artesanais.

Fomos apenas em duas vinícolas das maiores e com presença de mercado mais expressiva: a Miolo e a Casa Valduga. São legais, vale a pena conhecer, mas é aquele esquemão comercial, em que voce fala com pessoas treinadas para atender.

Mas o bacana mesmo são as vinícolas artesanais. Nelas, voce é atendido pelos próprios donos e enólogos, apaixonados pelo que fazem e orgulhosos quando conseguem apresentar produtos realmente bons. Já sabíamos que os espumantes e brancos nacionais são mais favorecidos pelo solo da região, que é ácido. Portanto, não foi surpresa degustar bons brancos e muito bons espumantes (destaque para o da vinícola Geisse),cujo rótulo “Nature” é realmente excelente).

A surpresa ficou por conta de alguns tintos. O percentual de tintos bons em relação ao total de tintos ainda é muito menor que o percentual de bons brancos e espumantes. Mas se pode perceber claramente que estão sendo bem feitos, todos são corretos na forma de serem produzidos, e em pelo menos três casos degustei tintos realmente bons: o “Special Blend” da vinícola Cave de Pedra, o “Sirah” da vinícola Alma Única , e o “Gran Reserva Milantino”, da vinícola Milantino. Esse terceiro, então, lembra um tinto espanhol envelhecido em barricas, é realmente excelente, feito através de um corte de Ancellotta, Tannat e Merlot  (as duas primeiras são bem encorpadas, e a Merlot entra para dar mais leveza e equilíbrio à mistura). Com o longo envelhecimento, o vinho é muito sedoso, equilibradíssimo.

Luigi, o dono e enólogo da vinícola Milantino, ao perceber que gostamos do assunto, saiu do script e nos convidou para entrar na adega onde o vinho da safra de 2005 está terminando de envelhecer, e retirou um pouco da barrica para provarmos. Ele se emociona ao perceber que as pessoas realmente apreciam o que ele conseguiu fazer nesse vinho. Ainda bem que ele ainda não está sendo comercializado, senão talvez eu não pudesse comprá-lo por falta de espaço climatizado. Mas troquei contatos com o Luigi, que me disse que pode despachar para minha casa, assim que ele sair para o mercado. É absolutamente surpreendente. Acho legal dar força para produtores abnegados como esses (email: milantino@milantino.com.br).

Recomendo também a Vinícula Salton – a mais interessante dentre as maiores, especialmente pelos brancos “Salton Virtude Chardonnay”, mais caro, e “Salton Volpi Chardonnay”, com melhor custo x benefício.

Ficamos surpresos. A qualidade dos espumantes é muito alta, e a qualidade dos tintos nacionais está evoluindo. Não temos clima para competir nos tintos com grandes produtores (nem da América Latina, como Argentina e Chile), por causa do excesso de chuva. Mas nos anos em que chove pouco, percebe-se claramente a evolução, pois as técnicas de vinificação estão apuradas e cuidadosas, e o acúmulo de conhecimento dos produtores está permitindo cada vez mais extrair o melhor que a região tem para oferecer. Esta safra de 2012, especialmente, será espetacular: todos concordam que será a melhor de todas, pois praticamente não choveu na região, e todos puderam deixar as uvas nos pés até a hora certa de colher. Todos os produtores são unânimes em falar que a safra de 2012 será histórica, a melhor de todas. Disseram que nunca viram uvas tão limpas, e amadurecidas de forma tão perfeita.

Aliás, uma boa dica: das que já sairam para o mercado, a safra de 2005 foi espetacular, falaram todos os produtores com quem conversei. Se acharem em algum lugar, sugiro provar, voces vão se surpreender.

Obrigada Claudio, deu uma vontade enorme de visitar todas essas vinícolas e a região parece linda!

Tchin Tchin!

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